Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Chegou a beatbrasilis!


Pois é, depois de muita bebedeira, porradaria e gargalhadas, conseguimos finalmente parir a primeira edição da nossa revista: "beatbrasilis", que já no seu número 0, chega cheia de marra e arreganhando os dentes, mostrando que veio realmente para ficar!

Trata-se de uma publicação criativa e inventiva, que entre tantas coisas, propõe-se a reverenciar a figura do "vagabundo iluminado", grande ícone do século 20.

Clique no link abaixo para fazer o download da nossa querida filha bastarda, pois é pra você, de fato, se deliciar bastante com ela!








Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

um inédito

não sei... sou um garoto
velho e amargurado
poeta desesperado
tenho uma overdose
de sonhos
e um suspiro como cartão de visitas

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

HISTÓRIA DE GOLFINHOS

(Um conto juvenil)

A menininha esfregou os olhos, apoiou as mãozinhas gordas no pedaço de chão forrado por esteira e se levantou sem fazer barulho. Andou pelo interior da cabana de taipa, passando por cima dos irmãos, pelo fogão à lenha, por baixo da rede do pai e abriu o trinco enferrujado da porta rústica bem devagar. Apesar da sua pouca coordenação e andar desajeitado, era bem pequena, conseguia realizar esse plano de fuga todas as manhãs, antes do sol nascer, com extrema destreza.

Sentiu a lufada do vento gelado com cheiro de peixe em seu pequenino rosto. Seus cabelos amarelos, compridos e desgrenhados chicotearam o ar desordenadamente e os pezinhos afundaram na areia enquanto ela se aproximava da praia. Escalou com pouca dificuldade o rochedo frio, encaixou o pequeno corpo dentro de uma das cavidades da grande pedra e ficou observando...

A lua branca enchia de luz o mar calmo, havia poucas estrelas e a menina riu... Riu deles, dos bichinhos, riu com eles, tão bonitos, os golfinhos. Eles também pareciam sorrir para a menina, saltando, mostrando as barrigas, nadando em círculos.

Todos os dias desde que sua mãe morreu, passara a fugir para a praia. Sonhou com a mãe numa noite e se levantou. Naquela madrugada não chorou, mas foi para a praia. No primeiro dia ficou apenas olhando o mar, nada viu. No segundo apareceu um bichinho. No terceiro foram dois e nos dias subseqüentes, muitos: Seus corpos lisos, brilhantes, fofinhos. Elevavam os orifícios de respiração para fora da água e emitiam uns sons agudos. A menina, com sua voz fina, “respondia”. Quem presenciasse a cena diria que eles estavam realmente se comunicando. E esse “diálogo” durava até um momento antes dos primeiros raios de sol surgirem. Então, a menininha realizava o trajeto de volta, entrava na cabana e se enfiava em seu cantinho de dormir. Ao que se saiba, ela nunca foi descoberta. Aquele era o seu grande segredo.

A pouca idade da criança, porém, não lhe agraciava com a “qualidade” da inocência: Ela sabia o peso de ser uma órfã de mãe e que sua família vivia em condições muito precárias.

Tempos depois, quando a colônia de pescadores onde vivia adquiriu um velho aparelho de TV, e ela pôde ver quase que diariamente imagens de pessoas bem vestidas e saudáveis habitando mansões luxuosas e pomposas na alienação das telenovelas, a certeza de ser uma excluída tornou-se ainda mais evidente.

Contudo, a despeito das mudanças físicas e psicológicas que a idade lhe trouxe, apenas uma coisa não se modificava: sua sólida amizade com os golfinhos. Ou melhor, algo mudou sim: alguns anos depois daqueles primeiros encontros à distância, a moça já era capaz de nadar com eles, tocá-los de leve, sentir o cheiro deles. Era uma interação maior do que a que ela poderia ter com qualquer ser humano.

Com o tempo, os limites impostos por sua desfavorável condição social foram sendo superados. Ela venceu a ignorância própria de quem não pôde ser alfabetizada ainda criança e começou a ganhar a vida na cidade.

Durante muitos anos, ficou sem o contato com os golfinhos, mas a mulher jamais perdeu o hábito de acordar cedo e ficar pensando neles, com a estranha certeza que, se fosse à praia da pequena ilha onde nasceu, encontrá-los-ia “sorrindo-lhe”, do mesmo jeito que antes.

Seus esforços levaram-na à universidade, tornou-se bióloga e mais tarde uma dedicada pesquisadora... Dos golfinhos!

Simão, o golfinho mitológico; a coloração da pele dos bichinhos que variava de acordo com a luminosidade da água do mar; as variedades de espécimes; a comunicação entre eles por modulação de freqüência; os relatos sobre a menina neozelandesa Jill Baker, que “cavalgava” oceano adentro no dorso do golfinho Opo; o golfinho Elie, que também brincava com crianças na costa do condado escocês de Fife; os golfinhos que apareciam mortos nas costas marítimas sem qualquer razão física aparente; e, principalmente, seu trabalho com crianças traumatizadas e altistas em que utilizava a presença de um golfinho no processo de terapia; - eram os temas e atividades que ocupavam a maior parte do tempo e energia da pesquisadora que amava demais aqueles animais.

Quando atingiu a idade da razão, nossa doutora-heroína tornou-se uma ativista, jogando-se ao mar junto com outros companheiros em protesto à captura desses mamíferos para servirem de atração turística em aquários particulares de empresários milionários. Foi filmada por redes de televisão e taxada de radical-extremista por jornalistas a serviço do poder econômico.

Mas quando em protesto na água gelada do oceano sentiu o forte impacto na cabeça desferido por algum desajustado da Guarda Costeira, ainda teve consciência para perceber seu corpo afundando, mole e inerte, e muito sangue à sua volta, num contraste com os raios do sol que na água do mar penetravam. Agradeceu pela vida que teve, pela intensa vida que teve, e se entregou ao seu destino, o de morrer pelos golfinhos. A última coisa que viu antes de perder totalmente os sentidos, foi uma mancha escura e esguia, com bico e barbatana aproximando-se à grande velocidade do seu corpo ferido.

Mas não pensem que esta história terminou aqui!

Nossa heroína ainda viveu por muitos anos, sempre fiel à sua nobre causa. Quando chegou realmente ao final da vida, com 95 anos de idade, pediu aos netos que a levassem pela última vez à praia da pequena ilha onde nasceu. Queria agradecer aos bichinhos por eles terem lhe dado um sentido para viver. Ela agradeceu. Eles vieram ao seu encontro. Eles agradeceram de volta.


Vitor Souza

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Prelúdio

Nico...como era mesmo seu nome? O papel de uma brancura impecável agigantava-se sob seus olhos. Subescrito, sob uma linha tênue, seu santo ofício, seu crachá, sua existência: Sumo Pontífice. Naquela tarde toda a humanidade suava. Suava em suas gotas grossas que escorriam da testa. Cabelos grisalhos, achatados pela auréola branca. Como a dos judeus, mas branca. Não preta. Um documento poderia mudar o curso da humanidade? Talvez sim. Talvez. Era a vontade de deus. Ou do concílio. A fé em dúvida... Melhor assinar e pronto. Pena, tinteiro e rubrica. Consumado está. Como deus disse, e alguém escreveu dizendo que o disse. Política, pensamento perigoso nessa posição. Não era travestido, precisava acreditar na divindade de suas atribuições. Política.

- Cardeal, toque o sino. Consumado está.

A contra gosto o cardeal recolheu o papel e deu as ordens a outro, que daria a outro e a outro. Até o homem do sino. Homem sacro, mas homem do sino. Soava o sino, e nisso estava sua divindade. Minutos se passaram, horas, dias. Soou. A multidão comemorava à frente do palácio. Jovens. Revolucionários. Partidários da revolução carismática. Os filhos bastardos de Lutero, eles venceram. Era a sina, o preço. Não. Política. Perigoso. Era a vontade de deus. Ouvia os gritos e suava. Teria que pronunciar a todos. Era de sua inteira responsabilidade. Ergueu seu caduceu (era egípcio?). Caminhou lentamente, passos esclerosados, passos de um santo:

- Irmãos e irmãs de fé, consumado está. É a vontade de nosso senhor Jesus Cristo, corpo de deus, o deus encarnado. Comemoremos irmãos.

Acenou brevemente. Fez o sinal da cruz e retirou-se. Consumado estava. O que haveria de ser, ao senhor haveria de saber. Sentiu-se leve, descansado. Teria algumas horas antes dos trâmites, e dos ecos. E, principalmente, dos protestos. Mas o mundo mover-se-ia ao favor do documento, um basta nos escândalos. Imaginou a multidão que se alistaria ao novo regime. Esvaziariam as riquezas do vaticano, agora desprotegida. Não haveria cisma, consolava-se. Todos acordaram que não havia outra solução. Era isso, ou o fim. Fim dos dízimos, fim da ordem, fim do poder, fim de tudo. Não seria melhor assim? Política... Deitou-se em sua cama barroca adornada de anjos dourados a sustentá-la. As ruas do paraíso eram douradas, mas eram os anjos? Não iria dormir, e não queria mais pensar. Algumas horas, repouso. Já que a profanação está feita, culpo-me menos. Comprimido azul e sono, sono sem sonhos, desejo proibido. Benzeu sua própria água, por rito, porque ainda era a mesma de antes. Comprimido azul. Pequeno. Azul. Comprimido. Mido. Midas. Ruas de ouro. Ou-ro...ou. Adormeceu.

Manchete do dia. Plantão simultâneo de todos os jornais do mundo. Rádios, TV, boca a boca e pombos correio: aos padres, recém consagrados, é permitido a partir do dia de hoje, o sagrado matrimônio, para que dividam com a santa igreja, com conhecimento de causa, a santidade de um encontro de almas onde um só corpo se faz, sob os olhos agudos de deus.

Isqueiro branco. Velho e gasto, isqueiro. Ainda acendia com presteza. Colado a ele, havia um selo de qualidade. Sempre raspo o selo de qualidade. Gosto de sentir a colinha que o emplasta, e deixa-o mais branco. Cricket. Não é um jogo com bola? Não me interessa. Existem perguntas suscitadas por objetos que não tem a menor importância. E nas quais não se gasta um minuto de pensamento, afinal, não interessam. São automáticas. Ainda assim, são feitas com uma regularidade abusiva. E o texto? Releio? A linguagem ta um tanto rebuscada. Cuidado com os clichês, pode não ser atraente. A literatura anda gasta, e você não. É novo e jovem: o futuro, a vanguarda. Rebuscado? Não interessa. Pergunta automática. Falta pouco para sair. Dormir um pouco é boa idéia. O dia será péssimo e o sol já está a pino, merda. Votarei ao texto. Depois, quem sabe...

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Mateus Souza

Domingo, 4 de Novembro de 2007

Mindinho

Entraram em um bar como amigos, objetivo? Mentir! Em voz alta.
-Amor...
-Fala
-Tu sabes que te amo, né? Mesmo com tua polidactilia, mesmo vendo que esse seu sexto dedinho da mão é bizarro...
-Bizarro, sei... Mas não reclama quando no teu eu o ponho!
-Por isso te amo... Divago aqui comigo que o bizarro é a fina flor do sexo. Viveria sem esse teu pau ai, mas sem o dedinho...
-Meu medo é esse... Acordar sem ele, sangrando em tuas mãos.... Não sei como me excitaria, que o sangue seria bom de ver....Ah, meu dedinho talvez ereto ficasse
-É nisso que tenho pensado, na verdade, é...podes fechar os olhos por um minuto? É preciso. É surpresa, vais gostar...
-Hmmmmm..... Tentarei, pelo amor que por ti sinto. Olhos fechados, Cadê?
Ela tremeu nos mil ensaios que fizera em casa, mas naquela hora, possuída pelo desejo, foi cirúrgica. Pegou o bisturi do bolso, roubado com cuidado, viu as mãos estendidas na mesa e ele, o desejo, o dedinho. Não sentiu, ele só pulsou e pendeu fora da mão. Caiu por sobre um paninho encardido de bar, sangue, sangue.
-Sabe que nem doeu?.... Queria de novo, e de novo, e de novo..... Olha aquele casal com cara de nojo....Vou embrulhá-lo num papel de pão e dar pra eles dois.... Baita vibrador será! Faremos alguém feliz essa noite amor, muito obrigado!
Ela pensou que o anestésico fez efeito. Mas que reação do cara! Que puto! Tirou todo o encanto sádico do seu desejo. Gritou se retirando do bar:
- SEU PUTO! VAI DAR O DEDO É? ENTÃO ENFIA NO CU QUE TE ODEIO!
Finalmente, ele pensou.
Sem despedidas, foram embora. A verdade é que não houve mentira, se odiavam mesmo e a querela toda foi resolvida. Com um dedo. Um dedo a menos, diga-se.

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Mateus Souza e Helena Hutz

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Minha Cara

Sinto o presságio e sei que mais uma vez ela vem caminhado lentamente ao meu encontro tão como há 14 anos atrás. Vem chegando e se anunciando nos sonhos contextualizados com cores e texturas particulares, com fragrâncias momentâneas vindas do não sei onde. São assim as suas mensagens, como ela, imprevista. Não a temo, ela faz parte de nossa natureza e mesmo que não fosse assim, o que poderíamos fazer para impedir a sua presença quando ela aparece ? Absolutamente nada. Portanto lhe escrevo para dizer que pode chegar minha cara, à sua vez e hora, aqui não encontrará resistência, desafios impossíveis, orações preventivas, fios conectados tentando afastá-la, nada. Sei que você além de imprevisível, aparece em circunstâncias peculiares pois não escolhe sexo, idade, raça, religião, status social e como se isso não bastasse, é uma aliada incondicional de doenças, furacões, tornados, sunames, terremotos, das guerras, enfim de todos os desastres e desgraças existentes no planeta. Não sei de onde você vem, nem para onde vai. O que sei é que faz parte da minha existência como eu da sua e que um dia inevitavelmente nos encontraremos. Sinto que levo uma vantagem em relação a você porque vou ficar em um lugar determinado até desaparecer completamente, mas quanto a sua entidade, creio que não descansará até exterminar o último verme na face da terra. E depois, o que fará ? É, minha cara, sempre tem um depois .... Aprendi na aula de Física com um excelente professor que o tempo não existe, mas nunca entendi isso muito bem, e ali estava porque precisava de alguns poucos pontos para fazer o vestibular, mas creio que o professor se referia a você e penso que isso estava ligado a sua qualidade atemporal. A minha resposta será dada e estará explicita na minha hora, tal qual como foi para meu pai que a desconcertou tamanha a sua dignidade ao recebe-la. Pare com seus augúrios fatídicos, deixe os meus sonhos, saia do meu olfato e não se anuncie mais. Saiba que estarei sempre em guarda, preparada, e não desesperada para alimentar o seu mórbido prazer.
Por Chris Freire Gari

Domingo, 28 de Outubro de 2007

Pedaços de Mar

I
Longe , lá no fundo da baía, existem praias maravilhosas e ali escolhemos viver um tempo. Entre o cais e as casas uma rua estreira, única, por onde circulavam os poucos que vinham e iam. Todas as casas de frete para o mar de onde podia se ver as pequenas ilhas, pesqueiros, saveiros, e o nosso veleiro ali fundedos em um mar tranquilo de águas claras e espelhadas. Ali os pores-de-sol, as luas, as estrelas, as mares, a brisa, o vento, as chuvas, as lindas notas da sua divina musica , quase nunca exposta, o silêncio das noites escuras, representava tudo o que queriamos para nós naqueles quase 10 anos. Hoje, penso que muito bem guardado - a sete chaves - em nossas memórias. Eramos jovens, lindos, livres, nunca nos prometemos nada e tudo acabou como começou, tal como as águas do mar deste nosso lugar, espelhadas e transparentes e quase nada foi dito, mas creio que sentido. Estávamos no mar. Navegavamos em um pequeno veleiro apenas com a mestra, deixavamos mover ao querer de um tímido vento em um entardecer de outono. A noite chegou , nos abracamos junto ao leme e juntos ouviamos o único som possível de ouvir, das ondas que quebravam na proa deixando para trás rendas de espumas que faziam saltar de forma mágica, milhares de colonias de planctos a brilhar enchendo de vida aquele espaço que até então pensávamos, ser só nosso, mas de certa forma o era, como únicos assistentes. Nada nos dissemos, nos mantivemos juntos em silêncio todo o tempo, não existia uma outra forma de expressão para aquele momento.

II
A forte neblina não me permitia ver a aproximação do seu barco chegando à praia. Esperava há vários dias a sua chegada esperada e desesperada com a sua ausência ansiando pela sua amada presença. Fazia frio, muito frio como em todas as aldeias pesqueiras no Mar do Norte. O nosso fogo estava permamentemente aceso e toda a casa estava cálida esperando a sua volta. Em um dado momento , nas escuras e turbulentas águas do mar, vi um luz , era a sua luz, o seu sinal que avançava em direção a nós, pois há muito perdemos a nossa individualidade desde quando passamos a ser só uma alma e um só corpo que foram fundidos solidamente por uma imensa e avassaladora paixão. Esperei mais um pouco, e sai à praia ao seu encontro que ainda fundeava o barco . Ali parada na escura areia, ansiava pelo seu abraço, seu beijo salgado, pelo seu cheiro de maresia... Assim, mais uma vez você voltou, desta vez com poucos peixes mas trazia uma bagagem imensa de desejos e eles nos levaram ao nosso paraíso onde se erguiam os sonhos e as fantasias.
Por Chris Freire Gari